Stefan Stern, Financial Times
28/05/2009
(sugestão de livro)
"Management Rewired - Why Feedback Doesn't Work and Other Surprising Lessons From the Latest Brain Science" - Charles Jacobs. Portfolio, 224 págs.
A administração de empresas não funciona. É mal concebida e implementada inadequadamente. É, literalmente, desumana. Estamos todos perdendo nosso tempo.
Esse é a linha mestra do novo livro de Charles Jacobs. Inspirado nas mais recentes descobertas de neurocientistas e apoiado em alguns dados científicos surpreendentes, Jacobs, consultor com larga experiência no aconselhamento de companhias de primeira grandeza, alinha uma série de princípios e ortodoxias, toma posição, aponta - e tenta destruí-los.
Muito do que ele escreve é convincente. Sabemos que avaliações de desempenho podem ser um meio relativamente insatisfatório e ineficaz de administrar pessoas. Sabemos como é difícil dar, e mais ainda, receber "feedback". E sabemos que as pessoas gostam que lhes sejam contadas histórias convincentes sobre para onde está rumando sua organização.
Jacobs apresenta evidências científicas para tentar justificar suas posições. E isso o leva a crer que "os gerentes que produzem os melhores resultados são os que menos gerenciam". Portanto, "o maior desafio está em os gerentes pararem de fazer a maior parte do que estão fazendo no momento".
Por que ele se mostra tão confiante sobre seu argumento? Jacobs se diz impressionado pelas descobertas sobre o funcionamento do cérebro, obtidas graças ao uso de imageamento mediante ressonância magnética. Os cientistas podem ver mais claramente do que nunca o que acontece dentro de nossas cabeças. Eles comprovaram como nossos cérebros evoluiram e se desenvolveram. As evidências levam Jacobs a fazer algumas afirmações ousadas.
Somos animais. E como nosso ser emocional é mais antigo e mais profundamente arraigado do que nosso lado racional e lógico, "nossos sentimentos têm uma tendência a atropelar nossa razão". Então, "na melhor das hipóteses, a lógica é apenas uma maneira de justificar conclusões às quais já chegamos inconscientemente".
Do ponto de vista genético, somos 98% chimpanzés. No trabalho, somos alfas em grandes combates ou formiguinhas subalternas disputando migalhas atabalhoadamente.
Preferimos narrativas: "Histórias são a maneira natural segundo a qual nossas mentes funcionam, e elas antecederam a invenção da lógica como forma de se compreender o mundo".
Os administradores precisam compreender esse ponto: "Se usarmos a lógica para influenciar pessoas inconscientemente movidas a emoção, provavelmente não teremos grande êxito em fazê-las abraçar nosso ponto de vista".
Do ponto de vista de racionalistas e pensadores lógicos, a coisa fica pior. Segundo neurocientistas, "todos nós vamos inventando, à medida que vamos vivendo. Cada um de nós vive num mundo mental construído por si próprio", diz Jacobs. Objetividade é algo imaginário. "Cada um de nós funciona automaticamente, fundamentado em nossa versão pessoal de realidade, e conflitos são, portanto, inevitáveis."
"Chimpanzés de status inferior precisam aprender a usar disfarces - ocultar suas intenções ou fazer coisas sigilosamente - para poder manter sua limitada autonomia na presença de superiores", diz Jacobs. As práticas convencionais de administração vão contra nossa natureza. "Quer sejamos chimpanzés ou funcionários de uma empresa, não gostamos de ser controlados por outros", acrescenta. A administração é "mais adequada a formas de vida desprovidas da capacidade de pensar".
"Feedback" é, basicamente, uma amolação. Nós lembramos as coisas ruins e ignoramos as boas. Em vez de avaliações convencionais, "os funcionários deveriam fixar seus próprios objetivos, criticar seu próprio desempenho e, se houver um déficit de desempenho, determinar que ações corretivas necessitam ser tomadas", argumenta Jacobs.
O novo papel dos administradores deveria ser praticamente o oposto do velho, diz ele: solicitar em vez de ordenar, prover informações para capacitar os funcionários em vez de estabelecer seus próprios objetivos.
"Quando se trata de organizar grande número de pessoas, alcançaremos melhores resultados se, em vez de tentar frustrar suas inclinações naturais, simplesmente aceitarmos como as pessoas se comportam e extrairmos o máximo proveito disso", diz.
Jacobs é excessivamente unidimensional. Como poderíamos funcionar num mundo sem lógica ou numa companhia que negasse a existência de objetividade? Será que já não avançamos um pouquinho desde quando nos balançávamos nos galhos das árvores? E não é o triunfo da racionalidade sobre nossas emoções uma marca de civilização?
De todo modo, o livro levanta questões fascinantes e importantes. Administradores deveriam encará-las seriamente. Um desafio considerável foi posto à mesa. Será você suficientemente chimpanzé para descascá-lo?
Fonte: jornal VALOR ECONÔMICO 28maio09









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